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09/11/20 11:14 | NOTÍCIAS

Bullying interno: o que fazer quando as piores críticas partem de você?

A maior parte das pessoas conhece o conceito de bullying: agressões verbais, físicas e/ou psicológicas, geralmente repetitivas, que humilham, intimidam e podem traumatizar a vítima. O impacto é devastador entre crianças e adolescentes, mas o problema também pode atingir adultos —principalmente no trabalho, entre colegas competitivos e chefes tóxicos. Em muitos casos, porém, esse tipo de atitude abusiva é cometida pela pessoa contra ela mesma.

Frases ou pensamentos como "sou mesmo imbecil", "faço tudo errado", "é melhor desistir", "vai fracassar de novo", "quem você pensa que é para sonhar com isso", e por aí vai. "É bem comum que algumas dessas pessoas tão severas consigo mesmas sejam amáveis e incentivadoras com os outros. Muitas conseguem ter empatia com o próximo, mas se esquecem que devem praticá-la com elas próprias também", diz Yuri Busin, psicólogo e doutor em Neurociência do Comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor do CASME (Centro de Atenção à Saúde Mental), em São Paulo (SP). Segundo ele, a origem dessa atitude, em geral, está na formação na infância e de uma autocobrança excessiva.

Em algumas famílias, o processo de educação e desenvolvimento ainda está pautado em uma visão binária, na qual existem sempre duas alternativas: a certa e a errada. "Esse conceito limita e intimida, gerando autocrítica e medo em fazer algo errado e uma enorme tensão. Toda pessoa que tem uma autocrítica elevada será, provavelmente, crítica com os demais", diz a psicóloga Marcia Dolores Resende, conselheira em Desenvolvimento Humano e Estudos da Família no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) e especialista em estudos da medicina comportamental.

De acordo com Resende, há distorções em que certos comportamentos de uma pessoa a definem como totalmente certa ou errada, levando essa visão para o nível de identidade. Essa percepção é desenvolvida, normalmente, em estruturas familiares com autocrítica muito presente, intolerância à espontaneidade e à experimentação no processo de aprendizado. "Quando a estrutura familiar é pouco flexível a modelos, estilos e pessoas diferentes, temos esse padrão habitualmente estabelecido".

Autocrítica demais faz mal

Ao longo do tempo, o bullying interno pode atrapalhar e até mesmo impedir o desenvolvimento de habilidades e a saúde e e harmonia nos relacionamentos. "Para alguém alcançar os seus objetivos e realizar conquistas, é preciso se conhecer bem e acolher os próprios defeitos, estando disponível para evoluir em sua trajetória, aprendendo com erros e acertos", diz a psicanalista Gisele Gomes, professora de Teoria Psicanalítica Freudiana na RNA Clínica e Escola de Psicanálise, em São Paulo (SP).

A autocrítica excessiva inibe a visão clara que o sujeito tem sobre as suas qualidades, habilidades e potencialidades e, consequentemente, limita as suas ações e relações. "Infelizmente, muitas pessoas não se acham merecedoras de nada ou nada será bom o suficiente para elas. Isso dificulta se sentir bem com si mesmo ou valorizar as próprias realizações", diz Busin.

Entretanto, é preciso lembrar que a autocrítica pode ter uma função protetora. Para Danielle Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e psiquiatra na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), esse bullying consigo mesmo acaba funcionando como um motor que "empurra" a pessoa para fazer o necessário para melhorar em algo.

Todo comportamento tem uma função produtiva e protetiva para o indivíduo, diz Resende. Nesse caso de buscar a perfeição, a proteção serve para evitar o desamor, a rejeição, a reprovação. "No entanto, esse padrão impede o crescimento e o amadurecimento pessoal, pois a dor é essencial para esse processo, inclusive para o autoconhecimento", diz. A psicóloga afirma que é preciso descobrir o que deseja fazer e ser, sem buscar o padrão perfeito que recebeu da sociedade ou das pessoas que transmitiram essa ideia em sua formação.

Veja dicas para se livrar do excesso de autocrítica

1. Entenda que a busca pela perfeição é uma proteção para evitar conexão com os sentimentos e a rejeição. Conhece aquele ditado "antes feito do que perfeito"? Pare de se cobrar tanto e valorize o que conseguiu realizar até o momento.

2. Faça metas realistas. Você é humano, portanto, não existe nenhum problema em cometer erros. Ninguém é perfeito e a vida não é perfeita. "Os erros existem para que você aprenda com eles. Portanto, estipule metas que você consiga alcançá-las, concentre-se seus esforços naquelas coisas que tem controle e se comprometa com uma vida de aprendizado e autoaperfeiçoamento", sugere Busin.

3. Procure lições em tudo. Quando algo não ocorrer conforme o planejado, reconheça o que deu de errado e procure aprender com o que aconteceu. Algumas autocríticas são bem-vindas, contanto que você mantenha a mente em algo contributivo. Diante de um fracasso, pergunte o que você aprendeu e o que pode fazer diferente da próxima vez.

4. Trate-se como um amigo. Seja gentil consigo mesmo e se ame como uma pessoa imperfeita. Todos estão experimentando coisas novas, cometendo erros e crescendo durante o processo. Por isso, foque no seu valor e seja grato por todas as suas conquistas até o momento.
"Pergunte-se todos os dias o que faz de melhor, as coisas que gosta em você e em sua vida. Escrever esses pensamentos em um diário e consulte-o regularmente. Isso ajuda a diminuir a autocobrança", diz Busin.

5. Diversifique as áreas de interesse, como hobbies, em que não há as cobranças profissionais ou de relacionamentos. "E, acima de tudo, tente aproveitar e valorizar os frutos de tanta exigência e esforço, lembrando que é possível voltar atrás em um emprego que não deu certo ou uma relação pessoal que ficou mal resolvida. Aos poucos, se você se permitir mudar, passará a ser mais flexível e generoso consigo, diminuindo suas expectativas e passando a enxergar que a vida é feita de erros e acertos", aconselha Danielle.

Fonte: UOL - Viva Bem
Texto: Heloísa Noronha
Imagem: Freepik
Edição: C.S.